3 de fevereiro de 2019

O som do amor

Postado Por:
Ainda hoje assisti um vídeo que mexeu bastante comigo. Pensei nele o dia todo e quis fazer como antes: escrever o que refleti e quem sabe compartilhar, porque se algo de bom vier com essas loucuras que escrevo, não será só para mim.
Era um vídeo bem curto, vi lá no instagram. Nele, em um casamento, a noiva queria cantar para o seu marido, mas ele era surdo. Ela, com a música no fundo, em libras, "cantou". Gesticulava cada palavra da música que todos ouviam, olhando e trocando com seu noivo alguns sorrisos.
Eu fiquei assistindo aquilo umas cinco outras vezes para aprender um pouco mais sobre o amor. Assisti para poder aprender a ser mais atencioso e compreensivo com quem amo.
Acreditei sempre que cada um tem sua forma de demonstrar o amor, de modo que quem é amado, com atenção, perceberia. Esse vídeo, no entanto, me reiniciou.
Às vezes é necessário falar um "eu te amo" em outra língua, de um outro modo, que não é necessariamente o nosso, mas o de quem amamos. É importante o esforço vindo de nós, fora do nosso conforto, para demonstrar que e o quanto amamos o outro.
Não é deixar de ser quem é para provar algo a alguém, mas sim mostrar que quando a gente ama, pouco importam as limitações, as dificuldades e as diferenças. O que vale mesmo é fazer o nosso amor ouvir a música que toca no coração da gente.

Dói, mas vai pro lugar!

Postado Por:
Há uns 15 anos quebrei o fêmur no quintal de casa enquanto tentava me equilibrar numa tábua fina que separava o arenoso do chão de cimento.
Todos os ortopedistas disseram a minha mãe que eu mancaria para sempre, que nunca voltaria a andar do mesmo jeito. Mainha não aceitou e continuou insistindo até que encontrou Dr. Orlando, que disse o contrário e fez um tratamento diferente do que os outros fariam.
Eu passei meses numa cama alta com a perna para cima, presa numa corda que era amarrada na massaranduba do telhado de casa. Foi dor, choro e a perna em carne viva quando o gesso foi retirado.
Não sei se é falsa memória ou coisa que a mente tentou apagar e não conseguiu completamente, mas me lembro de chorar muito por estar ali. Eu era criança, só estava brincando e de repente estava há meses numa cama sem poder andar e ir à rua correr, como "todo mundo" da minha idade fazia.
Não foi a primeira vez que em busca do equilíbrio eu me machuquei. Muitos de nós, em busca do equilíbrio, acabamos nos deparando com situações ruins na vida, com crises de identidade, perdas e prejuízos. É o risco de se viver. Quem não passa por isso também não passa pelo bom.
Isso acontece e deve acontecer o tempo todo porque a vida não é outra coisa senão isso. Muita coisa a gente não entende na hora, nem aceita o acontecer, mas é como eu vi numa postagem, sem descrição do autor, falando de aparelhos ortodônticos: "dói, mas deixa tudo no lugar".
Assim foi com o fêmur quebrado: doeu muito, mas tudo está no seu lugar. Agora me desejem sorte, vou correr na orla.

Nunca para sempre!

Postado Por:
Dia desses estava vendo tevê. Assistia a uma matéria que falava de um garoto que perdeu o braço arrancado por um tigre no zoológico. Nela, foi mostrada a sua superação (pois ele agora é um nadador paraolímpico); as dificuldades em nadar com apenas um braço e a ciência por detrás dessa dificuldade e consequente superação.
Em síntese, no tocante à ciência, a matéria dizia que após perder o membro o cérebro envia ao corpo informações (p. ex.: mexer o braço que já não existe) que o corpo não corresponde, o que resulta em espasmos e movimentos sem muita coordenação, com erros e dores até uma adaptação à nova realidade.
Eu refletia sobre isso esses dias no meu café da manhã em uma padaria, com um caderno e caneta nas mãos, anotando algumas trivialidades. Pensei em duas coisas: que eu conheci um cara que tinha apenas um braço, mas que a força que ele tinha nele era maior do que a que tenho nos meus dois, e também no quanto essa recuperação do membro perdido se assemelha a perda e superação de alguém.
Me permiti naquela manhã lembrar dos meus avós maternos, que perdi em 2006, do meu pai em 2011, da minha avó em 2016 e das outras pessoas que também partiram da minha vida.
Quando a gente perde alguém há muita dor, porque o sentimento que nos toma é o de ter sido vítima de uma mutilação. Foi arrancado algo de nós, algo que é parte da gente e isso nunca vai ser fácil de lidar. A nossa recuperação é tomada de idas e vindas, com dias difíceis de lidar, outros menos difíceis e atos involuntários, assim como ocorre na recuperação do membro perdido.
As involuntariedades no caso de ter perdido alguém é chamar o nome de quem não está mais, lembrar quando não se puxa a lembrança, chorar no meio da festa, ver alguém parecido e o coração gelar... enfim. A gente às vezes erra e "se passa", mas precisamos de compreensão porque vejam: é científico (lembrem do garoto que citei acima e os atos involuntários).
Eu, por exemplo, alguns anos depois de ter perdido meu pai, com saudade e esperança de aquilo não ter sido real, sentia o coração gelar quando um senhor que morava no bairro apontava na esquina de bicicleta. Isso porque, aos meus olhos ele lembrava o meu pai, que chegava na sua bicicleta azul para o almoço às 12h, ou depois do trabalho às 17 e pouca. Esse era o meu ato involuntário.
O que veio depois disso eu percebi sentado na padaria aquela manhã: meu pai escreveu em sua bíblia que "as pessoas entram e saem de nossas vidas, mas elas não vão só. Sempre levam um pouco de nós e deixam um pouco de si". Eu sempre lembro daquilo e me toquei que eu estou escrevendo com uma letra que lembra muito a dele. Aí eu me vejo em recuperação: eu perdi alguém, isso me fez mais forte, mas dentro de mim e de algum modo, esse alguém nunca se vai para sempre.
Eu posso até não escrever à mão que ainda assim minhas palavras estarão marcadas pelos afetos que guardo e sempre guardarei.
Em mim, todos presentes. Saudade e gratidão de sempre!
Postagens mais antigas → Página inicial