Dia desses estava vendo tevê. Assistia a uma matéria que falava de um garoto que perdeu o braço arrancado por um tigre no zoológico. Nela, foi mostrada a sua superação (pois ele agora é um nadador paraolímpico); as dificuldades em nadar com apenas um braço e a ciência por detrás dessa dificuldade e consequente superação.
Em síntese, no tocante à ciência, a matéria dizia que após perder o membro o cérebro envia ao corpo informações (p. ex.: mexer o braço que já não existe) que o corpo não corresponde, o que resulta em espasmos e movimentos sem muita coordenação, com erros e dores até uma adaptação à nova realidade.
Eu refletia sobre isso esses dias no meu café da manhã em uma padaria, com um caderno e caneta nas mãos, anotando algumas trivialidades. Pensei em duas coisas: que eu conheci um cara que tinha apenas um braço, mas que a força que ele tinha nele era maior do que a que tenho nos meus dois, e também no quanto essa recuperação do membro perdido se assemelha a perda e superação de alguém.
Me permiti naquela manhã lembrar dos meus avós maternos, que perdi em 2006, do meu pai em 2011, da minha avó em 2016 e das outras pessoas que também partiram da minha vida.
Quando a gente perde alguém há muita dor, porque o sentimento que nos toma é o de ter sido vítima de uma mutilação. Foi arrancado algo de nós, algo que é parte da gente e isso nunca vai ser fácil de lidar. A nossa recuperação é tomada de idas e vindas, com dias difíceis de lidar, outros menos difíceis e atos involuntários, assim como ocorre na recuperação do membro perdido.
As involuntariedades no caso de ter perdido alguém é chamar o nome de quem não está mais, lembrar quando não se puxa a lembrança, chorar no meio da festa, ver alguém parecido e o coração gelar... enfim. A gente às vezes erra e "se passa", mas precisamos de compreensão porque vejam: é científico (lembrem do garoto que citei acima e os atos involuntários).
Eu, por exemplo, alguns anos depois de ter perdido meu pai, com saudade e esperança de aquilo não ter sido real, sentia o coração gelar quando um senhor que morava no bairro apontava na esquina de bicicleta. Isso porque, aos meus olhos ele lembrava o meu pai, que chegava na sua bicicleta azul para o almoço às 12h, ou depois do trabalho às 17 e pouca. Esse era o meu ato involuntário.
O que veio depois disso eu percebi sentado na padaria aquela manhã: meu pai escreveu em sua bíblia que "as pessoas entram e saem de nossas vidas, mas elas não vão só. Sempre levam um pouco de nós e deixam um pouco de si". Eu sempre lembro daquilo e me toquei que eu estou escrevendo com uma letra que lembra muito a dele. Aí eu me vejo em recuperação: eu perdi alguém, isso me fez mais forte, mas dentro de mim e de algum modo, esse alguém nunca se vai para sempre.
Eu posso até não escrever à mão que ainda assim minhas palavras estarão marcadas pelos afetos que guardo e sempre guardarei.
Em mim, todos presentes. Saudade e gratidão de sempre!
23:03


