Sonhos e certezas, embora intangíveis e mais próximos da ilusão do que qualquer outra coisa, são os responsáveis por manter as pessoas de pé. Acreditar no abstrato muitas vezes é o que dá corda a vida.
No entanto, em muitos momentos na vida acabamos por perder o nosso norte, nossa fé, nossa possibilidade em acreditar em qualquer outra coisa. E o que nos faz chegar a isso, ironicamente, são as certezas da vida, os inevitáveis, as enormes probabilidades. A vida é um negar a fé e o mundo é o palco das viradas dos antônimos. Um dia morte, outro vida eterna.
Quando ainda muito mais novo recordo-me que ouvi pela primeira vez "casinha branca" na voz de Canindé. Eu era muito novo e não entendera tanto da letra, mas havia uma conexão ali. Um clique, como quando bate um cadeado, quando o ponteiro da bússola encontra o norte. Era um menino na rua procurando uma gude perdida que havia encontrado o norte.
Anos seguiram e escutei aquela música mais vezes, ora pelo vizinho que anteriormente havia feito com que eu a encontrasse, ora no meu computador. Era realmente o meu norte, meu ponto de equilíbrio.
Em 2011 uma louca tempestade me atingiu, perdi meu pai; uma das certezas da vida (a morte) me fez perder o norte. Era como estar numa ilha sem ver o mar, e isso durou muito tempo, tempo que os relógios não mediam. Porque a dor enlouquece o tempo: quando forte demais só nos dão a memória flashs de um filme que parece ter sido visto sonolento.
A música não tocava mais. Os acordes poderiam soar, mas eu não a ouviria. Poderiam ligar o rádio no último volume, mas eu não a sentiria. Não havia clique, não havia norte. Era eu um náufrago numa ilha sem mar.
Até o dia - acredito que muito tempo depois (só tenho o flash!) - em que ouvi na voz de Maria Bethânia "casinha branca", e o clique me veio aos ouvidos outra vez. E assim, ao escutar também na voz de Canindé, me sentia norteado.
Na estrada da vida, que é reta (por isso nos iludimos), certamente vamos passar por várias situações complicadas. Acontecimentos estes que nos balançarão de uma forma que talvez fará com que percamos tudo o que nos identifica, e isso parecerá eterno por um momento. A ilha será sem mar, daí então algo fará com que o cheiro de praia, os acordes de uma música ou alguma voz aponte novamente o norte. E ali, nossa vida ganhará novo ânimo.
Hoje ouvi "casinha branca" na voz de Canindé e ilustrei na mente não uma casinha branca, mas azul e bem pequena, com flores da cor da flor de lavanda. Minha avó estava sentada numa cadeira, com a porta aberta e meu pai conversava com ela. Senti o coração afagar, pois a música me apontou, novamente, o meu norte.
Recebe a nossa velhinha, pai.
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