Quando novo, por ser do interior, eu via muito pouco o mar. As oportunidades eram os passeios que nunca pude ir por falta de grana e as viagens escassas em que, parte do tempo de apreciação da imagem era dedicado a catar conchinhas para levar para casa.
Catava as conchas e as moradas dos moluscos para ter o que me fizesse lembrar do mar quando voltasse. Quando em casa viesse a saudade ou vontade do mar punha nos ouvidos a concha e ouvia o som da praia, o vento e o vai e vem das ondas.
Fazia isso para lidar com a falta. Ouvir o som das conchas era relembrar aqueles momentos, teletransportar-me àquele lugar onde tudo aconteceu, reviver, e também criar momentos, porque o objeto da saudade transcende à realidade. Há sempre mais numa concha que as ondas gravadas. E há em nós e na nossa saudade uma criatividade sem medida.
As conchas eram guardadas como se fossem joias. Eu as deixava no meu relicário, que àquele tempo era uma caixinha bem simples, hoje já é algo que comporta uma infinitude de objetos e sentimentos.
No meu relicário guardo minhas saudades. Os momentos que vivi e gravei, os que vivi tão intensamente que esqueci de gravar e tive que resgatar, os momentos que quis viver.
Há espaço para tudo por lá, porque embora aparentemente pequeno, como uma das conchas que tinha quando moleque, pode guardar coisas grandiosas, como os mares que amei.
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