29 de março de 2017

Você é o amor da minha vida, mas não dessa

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O nosso amor, já sabíamos, era coisa de outra vida - ou outras vidas.
Sabíamos desde o início. Era até a nossa resenha particular, aquelas coisas das quais só nós entendíamos. Era mais uma de nossas diversas intimidades, embora fosse essa a maior, meio assustadora, e agora, a mais linda.
O nosso amor era de uma outra vida e foi assim que o vimos na primeira vez que cogitamos a materialização dele. Foi a partir dali que tivemos uma de suas intervenções nesse mundo, naquele momento, naquele abraço nas escadas da vida onde os encontros são sempre intempestivos, naquele primeiro beijo, também intempestivo.
Intempestivo, na verdade, é a palavra que melhor define tudo que envolvia nós dois. Éramos nós infratores da ordens naturais, o amor nos colocou à margem do comum, fomos marginais com uma única excludente que abarcava tudo: o amor de uma outra vida.
O amor de uma outra vida é aquele o qual o sentimento e a nossa razão não responde a pergunta do porquê amar, simplesmente ama, da mesma forma que a rosa não tem porquês, ela floresce que floresce, como já dizia Angelus Silésius.
Em nossa vida, muito provavelmente vamos nos deparar com amores de outras vidas, e isso não é de todo ruim, é a nossa chance de viver o divino, o além de nós, é a nossa possibilidade de irmos além de nós mesmos.
O amor de uma outra vida talvez seja a melhor coisa que nos aconteça, a nossa maior chance de viver um sentimento além de qualquer coisa antes vivida, mas ele é um amor de uma outra vida, não dessa.
Ele aconteceu aqui, quando não estávamos na perfeita sintonia e onde não havia em nós a capacidade de lidar com o real e o abstrato. Pode ser compreendido como um erro do destino, ou como prefiro dizer, um grande acerto, pois como sabemos e estampei nas entradas e saídas dos lares do nosso amor, "amar é a melhor coisa que fazemos".
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