Catu, minha cidade, onde nasci e morei durante 18 anos de minha vida, tem feira todo sábado, é tradição; quando no sábado é feriado, eles trocam o dia, essa é a única exceção. Faça chuva ou faça sol, todos os feirantes estão lá, das 4h da madrugada até o final da tarde.
Quando criança, ia sempre à feira com minha mãe, acordava cedo, apanhava a sacola e ia ao comércio da cidade, onde fica a feira. Num sábado qualquer, ao comprar goiabas, critiquei as escolhas das goiabas de minha mãe, disse: mainha, essas goiabas estão feias, cheias de pintas pretas, as do Supermercado são lisinhas e tem a cor mais bonita. O dono da barraca nem hesitou, e logo disse: as goiabas que vendo aqui podem não ser tão bonitas quanto as do supermercado, mas não tem agrotóxicos e são mais gostosas.
Eis o mal do nosso tempo: o envenenamento diário disfarçado com a beleza superficial. Um prazer não raro, rápido. Tempos modernos.
Tempos modernos, a confusão dos fúteis, pensam que são o que têm;
Tempos modernos, o delírio dos vazios em vitrines de mentira, de escravidão;
Tempos modernos, paradoxalmente arcaicos.
Amores modernos, lindos por fora, por fotos, por votos. Focados na aparência. Contaminados pela beleza. Fertilizados. Urgência confusa. Por dentro, minhocas. Pobre goiaba!
Poupe-me da chuva de caras, das cascas, quero o gosto. Sou homem, mas não como só com os olhos.
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