11 de janeiro de 2016

Crônicas de audiência: divórcio sem separação

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Corredor quente, sala fria. Em poucos passos a temperatura mudou. Gilvan e Helena adentram a sala mudos. Para quebrar o gelo e manter a tradição, introduzo explicando o que nos levara àquela sala fria numa tarde quente de Salvador: um divórcio sem separação. 


A casa era de Gilvan. Helena, sua esposa, havia reformado a casa. O regime de bens era parcial, instalava-se o impasse: Helena não saía da casa sem receber de volta o dinheiro que gastou. Gilvan, que não trabalhava nem possuía meios para sua subsistência, alegava não poder pagar. Só acordavam em uma coisa: não dava mais. 

Helena, religiosa e de família tradicional dizia que por muitas vezes pediu orientação a Deus, porque acreditava que o casamento era para sempre, como, segundo ela, dizia a palavra. Mas ela, ainda que triste por ir de encontro ao que acreditava, dizia estar morta. 

Gilvan era de poucas palavras. Esbanjava a frieza que ele mesmo esperava dele. Concordava com o término, alegava estar desgastado.


Estando certos de somente uma coisa, esta seria feita, pois não era uma tarde para julgar; ali só se assinava o que fosse acordado entre o casal. 


Antes de assinar os papéis, Helena resmungara: "tem gente que pensa que só existe morte matada e morte morrida, mas as palavras também matam".

Helena se dizia morta, pelas palavras que ouvira em casa e pelas que nunca ouviu e sempre esperou. 


Papéis assinados, acordo feito: Um divórcio sem separação. Até que a vida os separe.

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