12 de janeiro de 2016

Que horas ela volta?

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A vida é feita de escolhas e entre as mais difíceis da vida está aquela em que deve-se optar pelas verdades doídas ou pelas mentiras confortantes.
Escolher as verdades doídas é como comprar as uvas tradicionais. Nem sempre é doce, e quando é, ainda têm os caroços. Mas, ao menos, imaginamos a procedência e o modo como foi produzida. E dos caroços, que sempre incomodam, pode-se criar ou mudar algo.
As mentiras confortantes são como as uvas sem caroço. Sempre são doces, e como não têm caroços, é puro prazer, embora não saibamos a procedência, nem como foi produzida.
"Que horas ela volta?", da Diretora Anna Muylaert, como eu dizia a minha amiga Paloma, um filme que dói, uma verdade doída, uma uva inicialmente azeda e com caroços. Trata-se, em síntese, de um retrato social genuíno da rotina das residências de classe média brasileira: Empregada Doméstica que mora no quartinho dos fundos, porque veio do interior e não tem família na cidade; faz papel de mãe e pai do filho que quase não os vê durante o dia; "quase da família" e, quando oportuno, invisível, muda e alheia, porque é quase da família, não da família e "tem que saber o seu lugar". E mais: mãe que não pôde cuidar da filha que, prestes a fazer vestibular, vem à casa "da nobreza" passar uns dias.
O desconforto que as cenas de assédio do patriarca Carlos (Lourenço Mutarelli) contra a menina Jéssica (Camila Márdila); as advertencias de Val (Regina Casé) para com a filha, colocando-a no que acha ser o seu devido lugar; a implicância da patroa Bárbara (Karine Teles) com a menina e a forma como enxergamos a situação da empregada que até determinado instante acha o tratamento que lhe é dado é devido são os caroços dessa uva que, com seu gosto doce no final, nos mostrou o quanto nossa sociedade menospreza as profissões em que o servir não vem junto com o poder.
Que possamos fazer desses caroços semente para as mudanças que não necessitamos, essas que só com muita empatia ou com um tapa (em forma de filme, ou uvas) desses a gente enxerga.

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