29 de março de 2016

O inferno são os nossos outros

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Há alguns dias fiquei com vontade de escrever sobre 'primeiras impressões'. Ia falar que são como um ponto cego de um carro, pois você só enxerga a partir do seu mundo e não vê o que realmente é, por estar no próprio "mundinho", mas não rolou. Não basta a ideia, tem que ter outra coisa... 

Mas ainda sobre enxergar a partir do nosso mundo, que é algo totalmente comum, conversava com uns amigos outro dia sobre exatamente isso. Na verdade contei um caso ocorrido comigo. 

Sempre levei a vida - e eventualmente posso continuar levando - no automático, como alguém que dirige um carro também automático. Você enxerga tudo a partir de onde você está, do que é seu, do seu espaço, do que até então você conhece (ou acha que conhece!). 

Num desses dias no automático conheci uma garota num lugar que costumo frequentar. Achei linda, fisicamente falando. Trocamos telefone e iniciamos um papo. Horas a fio conversando no whatsapp e eu não via a hora de encontrá-la novamente. Nos encontramos uma, duas, até que algo incomum aconteceu: nós discutíamos muito. 

Para mim que namorei sem ter tido nenhuma discussão isso não era comum. Fiquei intrigado, mas continuava mantendo o contato, e continuávamos discutindo. 

Disse em outro texto que algumas pessoas cumprem uma função em nossa vida e cabe a nós entendermos isso. Essa garota cumpriu um função na minha vida que eu demorei muito a entender. Entendi vendo isso acontecer com outra pessoa, porque, quase sempre, estamos no automático, vendo tudo sobre o nosso ponto de vista.

Por incrível que pareça, o que aprendi com essa garota com a ajuda de um outro casal foi que ela foi uma pessoa necessária em minha vida, que me proporcionou algo que eu precisava passar. 

Hoje, analisando todos os embates, percebo que eu não discutia com ela, mas comigo mesmo. Ou melhor, com um alguém que eu tinha sido, que estava em constante intriga, que eu estava deixando de ser, mas que precisava bater de frente para não mais ser.

Quando lembrei a ironia de Sartre, quando diz que "o inferno são os outros", sorri. Acabou a discussão e, depois de um tempo, também o calor.

Dizem por aí que os opostos se atraem, concordo. Mas sabe os iguais? É, os iguais se encontram, mas para se perderem.
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