Comparo sua partida aos minutos que antecedem um funeral. O silêncio absoluto interrompido pelos soluços do choro de partes de mim que essa face límpida não expõe.
Um silêncio de tragédia.
A cidade é sempre um caos enquanto dia, mas naquele momento, que não sei da hora ao certo, mas sei que é dia, nada parece existir. Só o silêncio absoluto que parece preceder mais uma tragédia, mas não. O pior já tinha acontecido. Você foi embora.
Esse silêncio perturba e tento de alguma forma preenchê-lo com músicas aleatórias, preferencialmente que não me recorde você, mas você está na aleatoriedade de tudo, inclusive das estações de rádio.
Ávido por seu afeto, seu gosto, seu corpo, abraço o mundo e todos que a mim chegam como se esse abraço fosse te atingir. Beijo e chupo como se fosse encontrar o seu gosto, mas não há o doce dos seus lábios, tampouco o calor deles me envolvendo junto com o seu calcanhar.
Você em mim tem mais vidas que as que supomos haver. Sua partida era um funeral. Você havia partido, morrido. E agora, te mato todos os dias, cada vez que pisco os olhos que embaçam te mato mais um vez. Te mato chorando, fazendo chorar, gozando, fazendo gozar.
No fundo não quero te matar para sempre. Quero seguir a vida que, como sabemos, é pra frente. Mas não minto, quero te amar mais um pouquinho, nem que seja em outra vida.
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