Fiz há alguns anos o que muita gente tem vontade de fazer quando vê algum animal abandonado na rua: levei para casa.
Era um gato, ainda filhote, estava numa caixa, miava muito.
Em casa, separei um lugar confortável para ele e dei de comer e beber. Tentei dar carinho, mas sempre que fazia isso ele me mordia.
Não entendia. Dei de comer, beber, abrigo, calor, carinho e, em troca recebia o que, para mim, seria o pior. Não fazia sentido.
Os dias passaram e eu continuava cuidando dele. E continuava também tentando dar carinho. Eu era criança, não me afastava imediata e permanentemente no primeiro impacto negativo. Isso é coisa que adquirimos quando nos tornamos adultos.
Antes de completar uma semana em casa encontrei o gato morto, antes do seu café-da-manhã que eu já ia levar.
Sempre enterrei os animais que tive quando criança, e assim foi também com o gato, que passou esses dias comigo, ainda que não aparentando um laço afetivo entre nós, já que eu dava carinho e ele agredia.
Logo após o enterro fui onde o encontrei. Lá havia uma senhora, daquelas que passam o dia na porta de casa, ela morava bem em frente. Aí indaguei sobre o gato. Dissera que foi ela mesma quem o colocou dentro da caixa do outro lado da rua. Motivo? Ele foi atropelado, e como não podia dar abrigo, o colocou do outro lado da rua.
Foi aí que entendi o motivo de receber mordidas finas em troca do carinho que eu dava. Quando o tocava e acariciava, não era necessariamente ele que eu tocava, mas sua dor. Talvez até a mordida tenha sido leve, afinal, sabe-se lá qual a dor que ele sentia...
Muitas vezes não entendemos o que recebemos em troca ao demonstrarmos nosso afeto por alguém. Estamos tão preocupados em demonstrar o que sentimos que esquecemos o que sente a pessoa a quem dirigimos esse sentimento.
Levar alguém para dentro da gente (ou seja, para nossa casa) é pegar o pacote por completo, não tem como deixar a parte ruim fora de casa. E, infelizmente, com ou sem motivo, tem gente que é quase que completamente dor, com raros momentos de alegria.
Não sei ao certo o que sentia o gato além de dor. Não sei se da rua até minha casa, se das noites no meu quarto ao lado da cama ele teve, além de dor, algo mais. Só sei que fui criança. Amei e demonstrei sem medo, sem culpa.
Não tive tempo de dar nome ao gato, nem coragem. Senti tanto e de tantas formas que nada parecia ser tão exato. E, por não ser exato, hoje o chamo de "X".
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