Li os papéis. Era mais um caso de pensão alimentícia. Dessa vez, com pais menores de idade, ou seja, os avós da criança também estariam. Sentei e continuei o trabalho até não mais conseguir me concentrar e me pegar ouvindo o que bem ali ao meu lado acontecia...
- Olha pra mim, meu filho! Olha nos meus olhos e responde: você está fazendo coisa errada?
Calado e com lágrimas nos olhos o garoto baixou a cabeça, com a culpa sobre a nuca, desapontado consigo mesmo.
Essa senhora, que não era mãe do rapaz, sentiu a dor da mãe que morrera quando este tinha apenas 8 anos de idade. O pai alcoólatra acabava com o dinheiro da pensão do garoto. E este, com apenas 16 anos estava vendendo drogas para poder pagar as despesas do filho que acabara de ter com a filha dessa senhora, que sentiu a dor da mãe falecida - porque uma mãe sente a dor de todas as mães.
Quando era garoto imaginava o Judiciário como um corredor frio que levava a uma sala cheia de papéis empoeirados com um velho míope e mal humorado para atender. Hoje, depois de várias aulas de Constitucional e Processo Civil percebo que, na prática, o garoto de anos atrás estava mais certo que o homem de hoje que aprendeu, depois de muito custo, a endereçar uma petição inicial.
Muita gente já disse que eu preciso estagiar em escritório de Advocacia, que lá vou crescer bastante, mas sempre enrolo. Prefiro as pessoas aos papéis e acredito que a Justiça seria um pouco menos injusta se fosse um pouco mais humana.
Casos assim me fazem lembrar do meu pensamento de garoto para eu não me tornar o velho que via no fim do corredor do Judiciário. Papel esse que eu havia interpretado há poucos minutos antes do ocorrido. Há pouco tempo tinha lido os papéis e os visto como mais um, igualzinho ao velhote míope, que não consegue ver nada além do que está exatamente a sua mesa.
Me senti culpado. Ao final da audiência, chamei o garoto. Me imaginei como pai para ouvi-lo e aconselhar, e assim o fiz, mas talvez nem surta o efeito querido. O garoto não precisava de conselhos, sermões, cadeia ou porrada. Precisava de amor.
Tirando os dos atores (incluindo o Cunha), choros me comovem. E o dele me comoveu. O moleque não nasceu mau, se perdeu. Ninguém se perde de verdade por querer e, diferentemente de Alice, o garoto não pode seguir o conselho do gato que oferece qualquer caminho aos perdidos. O caminho dele está traçado e ele corre contra o tempo, num país sem maravilhas para um preto da favela.
20:26



