Hoje caiu nas minhas mãos mais um caso dos quais convencionou-se chamar, provavelmente por influência de Zygmunt Bauman (autor de 'Amor Líquido'), de amores líquidos.
Amores líquidos são, em sentido comum, os amores que acabam antes da vida dos amantes acabar. São os que não ficaram juntos "para sempre", os que, talvez pela sociedade pós-moderna, sacanagem de alguns, sogras, fragilidade dos laços e relações humanas, não vingam por muito tempo.
E esse, como disse, era mais um caso. Tratava-se de um Reconhecimento e Dissolução de União Estável.
Como de praxe, introduzi explicando o objetivo do Núcleo de Conciliação e o instituto jurídico o qual havíamos de tratar, qual seja, da União Estável:
- Para se caracterizar a União Estável faz-se necessária a presença de quatro requisitos cumulativos: convivência pública, contínua e duradoura com o objetivo de constituição de família.
Antes de explicar cada um dos requisitos detalhadamente, eles, protagonistas de um amor líquido, duvidaram de estarem enquadrados na União Estável, por terem juntos (apenas) um ano e alguns meses de convivência.
Com cuidado, que é a forma como se deve agir em situações tão delicadas, expliquei que o significado de duradouro não é rígido e estabelecido numa quantidade mínima e exata de tempo. O sentido da palavra, embora emane da lei, é poético.
Ainda sem entenderem, busquei explicar melhor. A moça tinha uma tatuagem com o símbolo do infinito no braço. Apontei e falei:
- Sabe o infinito, como está aí em seu braço? Um poeta disse sobre ele algo aparentemente confuso: "infinito enquanto dure". Mas aí a senhora pergunta: mas o infinito não é... infinito? E eu respondo: não, senhora. O infinito do amor cabe num piscar de olhos, num segundo, em um fim de semana e também em um ano e alguns meses. O duradouro da União Estável também é assim, por ser amor: não é tempo, mas intensidade. E o Legislador, bem culto, leu Vinicius de Moraes, esse poeta que antes me referi.
Engraçado é que, quando apontei sua tatuagem, ela recolheu o braço timidamente. Após ter concluído o raciocínio, seu corpo desarmou-se, já poderia ver novamente seu braço, seu infinito, com duas inicias cravadas na pele. As iniciais dos nomes que estavam na pauta do dia.
Talvez ela cubra a tatuagem, talvez não. Mas sabe como é, essas coisas de amor nem o laser, tinta nova ou o tempo apagam.
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