Dia desses peguei um ônibus - como todos os dias - para ir a UFBA, e no caminho percebi uma ação que vez ou outra fazia, ou faço. Enquanto estava no terrível e tão certo quanto a morte engarrafamento do rio vermelho, percebi uma moça na calçada, que saltara de um ônibus e caminhava.
Ela estava num ônibus, mas como viu tudo parado e sentiu que aquilo não era pra ela; que esperar ou ficar inerte enquanto poderia caminhar não era a dela; que ser só mais um entre os 39 que podem ficar sentados e os outros 500 que podem ficar de pé, embora no mesmo lugar, também não era o que ela queria, ela desceu e sozinha fez o caminho até o largo.
Do ônibus eu a olhava e lembrara de uma conversa que tive em um bar dia desses, onde um amigo me relatara o pessimismo e situação de um velho amigo, qual seja, metaforicamente a mesma que a minha: parado, sentado, fazendo as coisas do modo padrão e aguardando algo que não dependia de mim.
Confesso que ao ouvir aquilo, embora entendendo, me incomodava. Nunca fiquei bem ao ver um grande potencial em inércia, mas, de todo modo, não podemos impor às pessoas nossos óculos, pois cada um tem o seu grau, ou nem tem.
Enquanto ela andava, em alguns momentos o ônibus a ultrapassara, mas, de algum modo, ela sempre estava além. Pois suas pernas, embora não tivessem o mesmo ritmo e velocidade das rodas, eram delas e por elas, não uma peça que dependia de um todo para chegar um lugar onde todos sabem.
Com sua energia e independência iria a qualquer lugar que quisesse. Sem vender a alma por passagem, sem atrasos na viagem. Seu destino era o seu tempo.
12:26


