10 de maio de 2017

Crônicas de buzu: mensário de alvará de soltura

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Fones no ouvido, buzão cheio e bem na minha frente um cara faz o seu relato, a fim de tirar um real pra colocar sua guia (coisas para vender no ônibus). Além de um fone no ouvido tenho um real no bolso, reservado pra um café em qualquer lugar.

A história do rapaz eu ouvia de longe, pois embora ele estivesse à minha frente, um fone de ouvido tocando O Rappa nos separava (por enquanto). Ocorre que ao ouvir "alvará de soltura" no relato do rapaz me interessei e pausei a música. Ele ganhou minha atenção.

Ele contava que seu alvará de soltura foi expedido há exatamente um mês, havia sido acusado de cometer delitos, respondia a processos. Estava tentando a vida com uma guia para sustentar sua família, composta por ele, sua esposa e filha. Nos contava uma história triste, de luta, erros e agora, um possível recomeço. Ele contava conosco.

Enquanto o ouvia pensava no processo. Quando sei que uma pessoa está sendo processada criminalmente a curiosidade em saber o delito é enorme. Tive vontade de saber a acusação, as teses, em que fase do processo esse alvará foi expedido etc.

Também pensei na história que ele contou. Me admirei pois muitos contribuíram. Na verdade nunca vi uma contribuição tão generosa em um ônibus. Confesso que presumi, sumariamente, de tão logo, com convicção, que sua história era muito bem contada e que podia ser um bom canto de sereia, ou seja, uma mentira para garantir uma grana e usar para sei lá o que.

Me envergonhei por ter pensado aquilo, pois não condiz com que tenho aprendido e acreditado. Daí tirei a singela grana que garantiria meu café num lugar qualquer e entreguei ao rapaz, olhei em seus olhos, que junto a sua boca agradeceram. Mais uma vez senti vergonha de ter presumido dele uma mentira.

Desde que comecei a estudar Direito, sobretudo o Penal, o qual tenho hoje um apreço maior, comecei a refletir sobre ele para além de uma perspectiva profissional, pois suas regras recebem fundamentos baseados em obras e acontecimentos de grande relevância, logo, ele dispõe de uma importância para as relações despidas de latins mal escritos e ditos.

Eis o motivo pelo qual me envergonhei: é incoerente de minha parte alegar e acreditar em presunção de inocência, vale dizer, que as pessoas são inocentes até que se prove o contrário, em presunção de boa-fé, que aduz que ela tem que ser presumida e a má-fé comprovada e, ao mesmo tempo, imaginar que a história do cara no buzão era mentira.

Pensei nisso após ter entregue a grana do café e ouvir a música que vinha na sequência. Era "Anjos (Pra quem tem fé)", do Rappa. Um trecho dizia: "...você sai em desvantagem se você não tem fé".

Não basta saber, tem que ter fé. A gente precisa acreditar, viver e fazer valer o que sabe.

Saí em desvantagem naquele dia, é verdade, mas serviu para desconstruir um pouco mais. Essa é a vantagem em saber pouco: todo dia há algo novo para aprender.
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