Tem coisas que a gente precisa passar pra poder ter uma noção mínima de vida, sabe? Uma delas é ficar entre às 12:30 e 13:10 no ponto de ônibus, no sol miserável de Salvador. Ah, isso certamente lhe ensinará algo. A mim ensina há anos, e hoje cedo, mais ainda.
Fones no ouvido para diminuir o stress, O Rappa tocando. O tempo passa mas meu ônibus não. Toda hora aparece um verdinho, eu sorrio, penso que é o meu, mas quando vejo de perto, é qualquer outro que tem um destino diferente.
Chegou a um nível em que, de tanto demorar, acabei sorrindo sarcasticamente a cada engano, pois foram tantas expectativas frustradas que sorrir ironicamente ao ar era o que me restava.
Enquanto isso comecei a imaginar como seria quando ele enfim chegasse: como reagir quando nos encontrarmos e seguirmos o mesmo destino? Serei gentil e agradecido ou reclamarei a demora, descontando nele os desencontros?
Divaguei, como sempre! Imaginei no ônibus certo a pessoa certa. São tantos desencontros até o verdadeiro encontro; tanto contratempo até a perfeita sincronia; tanto sarcasmo até a cumplicidade; tanto "contatinho" até o contato perfeito, até o tremor do toque.
Imaginei mais ainda: esse desencontro todo cansa, e a gente acaba às vezes esquecendo de sorrir para quem chegou, talvez atrasado a nosso juízo, mas certamente pontual no relógio de algum deus.
A gente precisa compreender o destino como um fone embolado talvez. Não importam as voltas e os nós, a desordem, o que vale de fato é se toca ou não toca. Ignoremos o nosso perfeccionismo pela linearidade e ilusória simplicidade dos encontros. Isso porque, de algum modo, não importa a velocidade com que quem a gente ama chegou, o amor em nós - quase sempre atemporal - sempre vai ter desejado-o antes mesmo de sua chegada.
Divaguei, eu sei, mas foi o sol quente na mente e a música que um trecho para mim não mente: "o amor é tudo o que me interessa..."
00:45


