Outro dia me ofereceram umas frutas desidratadas. Esteticamente parecia salgadinho. O gosto era sem vida, por assim dizer, mas no fundo sua essência estava devidamente preservada.
Na mesma semana fui à livraria e comprei mais um livro do saudoso Rubem Alves, e por incrível que pareça, em sua primeira crônica ele relatara sobre umas folhas que colhera num outono. Elas tinham cores que variavam entre o amarelo e vermelho, em forma de coração. Pelo significado daquele outono, ele guardou algumas dentro de guardanapos de papel para depois desidratá-las. Ao chegar em casa, cobriu-as com um spray de verniz e as retirou do tempo.
Diante do que é inevitável, como o passar do tempo, da vida e a mudança das estações; ou do que simplesmente às vezes tem prazo de validade, como uma viagem, uma história de amor ou uma amizade, a nós, no mais das vezes, sensações pouco inteligentes permanecem. Rasgamos fotografias, queimamos cartas, gritamos, procuramos de todo jeito esquecer e esperneamos porque, de algum modo acreditamos que um final trágico superará a história e nos dará o conforto que erroneamente acreditamos precisar.
É imbecil, mas aceitável, pois como escreveram há quase um século antes da Era Comum, nem a um deus é exigido ser inteligente quando do amor. E o que mais é a dor senão uma pura manifestação - ou sinônimo - do amor? Djavan concordaria comigo.
Acabei por aprender cedo, perdendo as boas e melhores coisas e pessoas que, embora a selvageria da dor da perda me leve a enlouquecer a ponto de ir de encontro ao que amei, devo recuar. Devo, fazer como Rubem Alves fez com as folhas de outono: retirar do tempo. Dar brilho com sorrisos saudosos, guardar em vidros confortáveis. Isso porque, em que pese a perda em vida, de nada valeria tudo se a gente, no afã da dor perder ou tirar a essência do que foi ou ficou.
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