9 de julho de 2017

vão-se os anéis, ficam os textos

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Furtaram os meus óculos escuros!

Cheguei a essa conclusão depois de, observada minha mochila aberta após atravessar a passarela do iguatemi, procurar em todos os lugares que passei para ver se eu havia esquecido-os por lá, mas não. O que me levou a crer que sim, fui furtado. Para o azar do indivíduo, os óculos, apesar serem de sol, têm grau.

Aplico ao caso o ditado dos antigos: "vão-se os anéis, ficam os dedos". E nesse caso, vão-se os anéis, ficam as histórias, reflexões e aprendizados.

Lembro que da outra vez em que algo parecido aconteceu eu disse: "continuo garantista". Reafirmo esse posicionamento pois, o que levaram de mim foram os meus óculos, não a mim, tampouco minha forma de ver o mundo e as coisas ao meu redor.

Digo isso, pois, é comum, quando nos tiram, perdemos ou deixamos algo e pessoas, estarmos perdidos, como míopes sem seus óculos, sem suas lentes. É como um dilatar das pupilas sem colírio. Ao fim ou pouco depois do final estamos com a personalidade desfigurada, como se aquele evento traumático tivesse levado a nós, ao invés de algo nosso ou alguém de nós.

Recordo entre minhas perdas a de alguém que foi para mim como um colírio. Dilatou minha pupila, reiniciou minha forma de ver o mundo. Depois dela, vi tudo de um outro modo, talvez parecido com o dela, e ela com o meu. E quando ela se foi, aconteceu como quando perdi os óculos escuros: evitei a luz do dia, doía abrir os olhos e ver o mundo como é, chateava olhar e não conseguir ver ao meu lado as coisas que eu via e como via.

E com o tempo (ah, o tempo!), a luz tornou-se suportável e em certo momento até bonita, me fazendo ver tudo melhor, de um jeito melhor, como num reiniciar. Sem óculos, por enquanto, mas com os dedos para poder lhes dizer: não se perca, não deixe de ser, por nada, nem por ninguém.
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