22 de setembro de 2017

Nordeste, braços de Deus

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Estou num ônibus, em viagem de um estado a outro. Planejei com antecedência, comprando cedo a passagem, escolhendo poltrona certinha. Os planos eram passar essas horas com meus fones de ouvido e dois livros.

Mas, no meio da estrada, num daqueles cochilos, eis que Gabriel (filho da moça atrás de mim) brada um choro ao meu ouvido, mostrando que Deus tem bom humor, pois se planejo algo, isso nada quer dizer sobre nada.

Irritado? Sim, mas apenas nos primeiros segundos. Se Deus tem bom humor eu tenho curiosidade. E a moça que atrás de mim está com seu filho tem uma colega de viagem que gosta de conversar. E eu, que estou de bobeira, já que não consigo ler nem dormir, escuto.

Essa moça com seu filho tem a mesma idade que eu (23), e como muitos nordestinos foi a São Paulo procurar emprego. Lá estando, com emprego fixo conheceu um rapaz que, segundo ela, sempre foi um amigo. Ocorre que dessa amizade, como que num dos soluços de um bebê, bem de repente, não mais que de repente, surge Gabriel.

Após Gabriel, ela foi demitida do emprego, e logo após, seu companheiro lhe deixou. Ela, então, volta ao Nordeste.

A relação dela com o pai da criança, por ela, seria ótima, mas ele, segundo ela, não colabora. O amor para com o filho resume-se a algumas fotos em redes sociais, e aqui, longe de SP, ela sozinha cuida do seu filho - e trabalha.

Enquanto conta sua história, Gabriel, como se entendesse, chora. Sua mãe então se levanta, ele cala e sorri. Nós, no ônibus, sorrimos com isso. O gelo do ônibus é quebrado. Uma moça se voluntaria para descansar os braços cansados dessa mãe.

Minha viagem não foi tranquila! Deus tem bom humor, mandou Gabriel, que quebrou o gelo do ônibus, de algum modo trouxe sua mãe de volta ao Nordeste.

Gabriel é um anjo, ninguém duvida. Igual arcanjo Gabriel, 'o mensageiro'. Hoje, Gabriel me passou uma mensagem, bem ao ouvido e trouxe sua mãe de volta pra casa. O interior de Sergipe onde saltaram, hoje, para eles, são os braços de Deus.

Desejo a eles boas vindas e uma vida feliz no nosso calor. Deixo também o meu agradecimento, pois com a mãe de Gabriel muito aprendi. Me envolvi em sua história e me comovi com sua coragem. Lembrei-me tão logo de um poema de um nordestino:

"Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará." (Patativa do Assaré)

Livro não tive como ler, mas história ouvi e tenho pra contar.
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